APRESENTAÇÃO

IMAGENS







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Olhar 2002

OLHAR 2002




Olho para 2002 e não consigo evitar a angústia desta saudade de um “Abril” cada vez mais distante. Percorro a memória em busca de palavras de esperança e só encontro as imagens do desespero de um número crescente de portugueses que foram, ao longo do ano, lançados para o deserto do desemprego perante a passividade do Governo, enquanto o Sr. Ministro da Segurança Social e do Trabalho se entretinha na construção dos novos edifícios legislativos que serão a panaceia milagrosa para a segurança das reformas garantidas para todos, a certeza do aumento de postos de trabalho e o aumento da produtividade e competitividade que terão como resultados inevitáveis a riqueza e a modernidade para Portugal.
Releio o que acabo de escrever, na tentativa de me limitar a uma simples análise objectiva. Mas sinto-me, de facto, incapaz de fugir a esta mágoa de quem se vê perdido, por entre a multidão dos que parecem ter desistido de lutar contra quem nos quer fazer crer que não existe alternativa possível para esta sociedade movida pela ânsia feroz do lucro de um capitalismo sem pátria nem fronteiras. Progressivamente amordaçados com a crescente precariedade (e a anunciada flexibilidade) dos empregos, vamo-nos deixando distrair com histórias televisivas dos heróis da sacanice nacional (misturadas com episódios dramáticos dos poucos que são apanhados pelas malhas da justiça), enquanto nos fazem rir e chorar com a mediocridade cultural popularizada intensivamente através da exibição sem pudor da pseudo-intimidade da vida dita real. Prisioneiros deste velho e crónico conformismo fatalista, vamos andando pelas ruas da nossa amargura, sem um gesto de revolta, sem um grito de fúria, mansamente obedecendo ao destino que outros, arrogantemente, pretendem traçar, sob o pretexto de que fomos nós que os elegemos, e, por isso mesmo, têm todo o direito de fazer o que querem durante quatro anos. Por outro lado, convém não esquecer, temos que aprender a ser civilizados (portanto caladinhos e sossegados), e rapidamente, que vem aí o Euro 2004 e o Futebol é que nos safa (e o Fado também mas nem por isso).

Por onde andarão os fazedores de sonhos que nos prometeram um país de liberdade e democracia? Para onde foram os profetas que anunciavam uma nova terra de fraternidade em que o trabalho, a saúde, a educação, a cultura, a justiça, a verdadeira igualdade de direitos seriam os grandes objectivos do nosso futuro? Que silêncio é este que nos vai lentamente corroendo por dentro e nos rouba, a pouco e pouco, a força de lançar uma simples palavra de protesto?

vieira da silva
23/01/2003

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