APRESENTAÇÃO

IMAGENS







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O que João Balseiro disse sobre \"Marginal\"





SEXTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 2002



... Poetas, são homens que fazem versos. Quando os versos são bonitos e soam bem aos ouvidos é muito agradável lê-los. Muitas pessoas aborrecidas ficam bem dispostas quando lêem versos. Por isso ser grande poeta é tão útil como ser grande médico ou ser grande engenheiro...

Rómulo de Carvalho




Aviso à navegação:

Conheço Vieira da Silva desde metade da década de setenta. Ouvia os seus discos na rádio, o que já na altura era uma paixão mas, sobretudo, este conhecimento não pessoal era das conversas com amigos.
Conheço-o mesmo antes de ele me conhecer. Tenho o privilégio de ser, hoje, seu amigo e, conhecer muito melhor a sua poesia.
Sou, por isso, suspeito e parcial, mas afirmo que é com a maior honestidade intelectual, que me proponho fazer crítica literária ao seu livro.

Marginal – ( Poemas Breves e Cantigas ) é um livro de poesia de Vieira da Silva com edição MC – Mundo da Canção.
Marginal é um bom título – gosto sinceramente – o mesmo já não direi do subtítulo (Poemas Breves e Cantigas). Para além do subtítulo ser desnecessário, não percebo esta ideia de poemas breves, não sei o que são poemas breves, e depois do livro continuei na mesma, é um perfeito disparate, a única divisão que conheço é entre poemas que são poesia e versos.
Mas para agravar mais, o subtítulo ainda tem uma divisão ... e Cantigas... também me parece bastante infeliz, claro que quer dizer que alguns poemas foram musicados, mas para o livro, que é de poesia, não me parece grande ideia.
Outra asneira, são diversas as partituras metidas à força no livro, nada adiantam, e a maioria dos leitores não sabe ler música.
Marginal tem formato de livro de bolso, com dois erros evitáveis:
1º A última página devia aparecer em branco.
2º A primeira página só devia ter o título.
O grafismo é moderno até talvez inovador, mas a verdade é que eu não gosto. Descaracteriza a estrutura ( forma ) dos textos. Muitas vezes, quase sempre digo eu, a forma é fundamental para a compreensão. Mas mais importante é que o autor escreveu desta maneira, devia publicar respeitando a sua escolha.
O Prefácio é da autoria de Viriato Teles e depois de o lermos, ficamos com a impressão que o Marginal não poderia ter outro. Isto diz bem da categoria do prefácio e do seu autor.
Ao arrepio do que é normal, este livro não tem dedicatória, tem uma anti-dedicatória. É uma ideia só ao alcance de génios. O texto tem classe, o mesmo já não poderei dizer da referência que faz a João Balseiro, não me compete avaliar se o dito, foi ou não importante, mas parece metido ali um pouco forçadamente. Nas entrelinhas faz mais referências e aqui sim, com muita categoria já que não nomeia nomes, apesar de lá se ler Edite entre outros.

A poesia da responsabilidade do autor começa com um aforismo. É uma ideia boa, bonita, elegante e cheia de classe.
“...Acho que escrevo sempre o mesmo poema, as palavras é que são diferentes...”
Se tomarmos à letra a primeira parte do aforismo poder-se-á concluir que a poesia de Vieira da Silva é elíptica quase circular porque é sempre a mesma. No entanto a segunda parte ... as palavras é que são diferentes, já mostra diferentes sensações, outras emoções. A dialéctica é isto mesmo e a poesia também.

Notas sentidas, não no sentido explicativo:

Por questão de facilidade vou seguir a paginação do livro.
O primeiro poema - Beijo - é dos poemas mais belos que eu já li.




“ Beijo “

meus olhos nos teus
teus olhos nos meus
e mais ninguém junto a nós
nem deus “

Só pode escrever um texto assim quem teve uma formação religiosa na infância. Só pode escrever um texto assim quem for um POETA.

“ Noite “
...
um gato negro
salta do telhado
vai desanimado.

Às vezes somos todos gatos, gatos desanimados. Nem todos vêem, mas os poetas não só vêem como nos fazem ver.

“ Desilusão “
...

chorei
e enterrei
o sonho que me morreu

É esta uma das características de Vieira da Silva dizer o que ninguém está à espera. Enterrar qualquer coisa que morreu é banal, enterrar um sonho que morreu é Poesia.

“ Apatia “

vi
lá muito ao longe
o sol
de cansado
enterrar-se todo
nas águas do mar
e deixei-o ir-se
sem o tentar salvar

A beleza está nesta ideia que ninguém teve; salvar o sol de poentes. a poesia está no que nos obriga a pensar; e se alguém, embora louco, tentasse salvar o sol de afogar-se !!!

“ Marginal “

apesar de tudo
à margem
por teimosia
ou cansaço
ou por falta de coragem

Poema que dá o título ao livro e pode dizer-se que foi uma escolha feliz, pois aqui a poesia não ficou à margem.

“ Canção para um povo triste “

...
canto a solidão
a ocidente
ligada à terra
que nos viu nascer
a covardia
feita de orações
na doce esperança
de poder morrer

Cantar a solidão é fácil, cantar a solidão a ocidente só Vieira da Silva. Fazer um grande discurso para explicar que os covardes fogem apegados a tudo é fácil e vulgar, dizer a covardia feita de orações é escrever poesia.
O poema finaliza com dois versos fantásticos:

...
que já são horas para ser feliz
que é chegado o dia do medo acabar...

Pois é, temos tempo para tudo e para nada, só não temos tempo para sermos felizes sem medo.




“ Balada do soldadinho “

À primeira vista parece um poema para crianças, o que é um engano. É todo escrito como se fosse com uma pena em vez de esferográfica. Tem um verso ... já sonhou sonhos de neve ... que tem a delicadeza de mãos de fada.

“ Para a construção da cidade necessária “

...
porque te ficas sentado
à janela da quimera...

É o que fazemos quase todos, sonhamos, mas ficamos debruçados com a cabeça em cima dos braços à janela das nossas ilusões.

“ Da solidão e do trigo “

Poema de um realismo espectacular, mesmo que nunca se tenha ido ao Alentejo depois de ler este poema parece que viemos de lá. Este poema vale bem mil imagens.

“ Canção do dia imaginado “

Poema com uma força extraordinária, com um ritmo avassalador, um respirar impressionante. Cada palavra é um punhal a rasar o limite do suportável.

“ Canto da hora chegada “

...
rasga as nuvens dos teus olhos
cegos dos dias iguais...

É uma ideia, é uma imagem que nos faz acreditar que é possível.
Este poema tem o senão de alongar, sem acrescentar nada.

“ Os lobos: eles estão aí “

Poema panfletário, teve sem dúvida a sua época, excessivamente datado...
O problema é que não tarda, e estamos nessa época outra vez.

“ A sudoeste “
“ O tempo é de guerra “

Estes textos dariam para fazer uma tese de mestrado sobre poesia. Nem uma palavra desenquadrada, nem o mais leve desequilibro seja de que tipo for. Poemas que todos gostaríamos de ter escrito.

“ Abraço “

Quem quiser ver simples vê, quem não quiser... vai ter mais tempo para amar.

“ Meu amor do nunca “

Um texto que objectivamente tem pouca poesia. Vale como exercício poético e de estilo.

“ Angústia “

Um poema longo espartilhado em versos. É uma grande prosa se fosse trabalhada.

“ Onde estás ó liberdade ? “

É um poema aparentemente velho. Trocista e mordaz. A chatice é que já vamos sofrendo nos olhos a sua actualidade de novo.

“ Cantiga de embalar “

...
que o teu sol foi trabalhar
foi fazer o dia de amanhã...
...
dorme sem receio
que o papão
é uma velha história de enganar...

Até parece só, uma história para adormecer crianças.
Vieira da Silva tem essa enorme qualidade que é surpreender-nos quase sem darmos por ela.
Foi capaz, com grande classe e subtileza, diga-se, transformar um texto vulgar que seria, é uma velha história de encantar, neste alar a poesia que faz a diferença, é uma velha história de encantar. E encantou.

“ Canção de mágoa

...
vai-se o tempo e nós aqui
adormecidos no cais
entretidos com o medo
de já ser tarde demais...

Ficamos deslumbrados com a poesia desta quadra. A tristeza é que andamos todos entretidos no cais e adormecidos no medo. Dá raiva complicarmos tanto e lermos tão pouca poesia.

“ Um dia “

...
não te deixes ir morrendo
sem fazer o teu poema
...
vamos erguer a cidade
com tijolos de ternura...

Este poema tem uma suavidade de seda. É linda e solidária a imagem de construirmos seja o for com tijolos de ternura. Vale a pena estar vivo para ler versos com esta ternura.

“ Este país “

...
já são horas de sairmos deste medo
e fazermos este barco navegar.

Temos obrigação de navegar neste barco ou neste livro que é alguma da poesia de um grande poeta - Vieira da Silva.



As notas anteriores, na minha opinião chegariam para perceber a dimensão da poesia, e neste caso, do livro de Vieira da Silva. Foram estas, e sobre estes poemas, mas poderiam ser mais e sobre mais poemas ou outros. Escolhi só estas para não ser muito chato, e não estou certo de ter conseguido. No entanto, podemos ir mais longe. Podemos tentar uma pequena análise mais literária dos textos.

Notas literárias:

As notas que se seguem, são para quem tiver dúvidas da riqueza literária do marginal ou para quem queira relembrar o que aprendeu na escola.
Grande parte da poesia de Vieira da Silva é feita sobre quadras. É verdade que o Poeta, muitas vezes, apresenta uma outra forma, mas basicamente, se tivermos atenção são quadras.
O marginal tem quadras metricamente certas a sete sílabas, no entanto, tem igualmente, quadras sem grande preocupação métrica.
As rimas são na esmagadora maioria cruzadas e geralmente ricas. Foge às rimas mais vulgares, e não rima diminutivos, nem verbos com verbos.
Nas suas quadras encontram-se a redondilha maior e menor, se bem que com muito menos preponderância desta última. Como a diversidade é grande, aparecem versos sem rima ou brancos, mas também os chamados versos heróicos ou quebrados.
As epíforas, anáforas, reduplicação e paralelismo, são figuras de estilo que lemos no marginal com frequência.
A riqueza das metáforas em qualidade e quantidade é igualmente muito grande: animismo, hipérbole, ironia, apóstrofe ou invocação são bons exemplos.
Para que não se julgue que me passei dos carretos e que inventei esta treta, só alguns exemplos de fácil verificação:

Elipse o poema beijo
Apóstrofe o poema a para a construção da cidade necessária
Ironia o poema onde estás ó liberdade






Notas finais:

Vieira da Silva é marinheiro da palavra. A sua poesia tem sabor a mar, mesmo quando o mar não está explicitamente referenciado. Se tivesse que encontrar uma cor para a sua poesia era Azul. É uma poesia anoitecida, muito nocturna, mas aberta e sem dissonantes no seu ritmo. Nunca aponta caminhos, não condiciona, faz-nos é escolher nos cruzamentos que são efectivamente muitos.
A poesia do marginal, tem um respirar ora ofegante ora repousado mas sempre sereno. Às vezes dura, outras vezes com a delicadeza do voo das andorinhas.
Se tivermos em atenção que o absoluto, em linguagem filosófica é a ausência de qualquer forma de dependência e não está ligado a nada, nem sustentado por nada; a poesia do marginal é a poesia do absoluto.
O marginal é um livro que cansa, cansa muito, porque faz viver.





JOÃO BALSEIRO



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