APRESENTAÇÃO

IMAGENS







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As respostas de uma entrevista feita pelo meu amigo Artur Ramisote

Respostas a um conjunto de questões
apresentadas pelo Artur Ramisote.



1 - Não tive a sorte de ter como Mestre o Professor Guilhermino Ramalheira. Aliás a timidez crónica de que ainda hoje sofro (mais evidente na minha adolescência) fez com que durante muito tempo nem sequer me aproximasse de alguns desses homens que muito admirava pelas suas qualidades dentro da chamada arte musical. Limitava-me a observá-los e ouvi-los. Músicos da nossa terra que desde muito novo fui descobrindo nos bastidores dos diversos espaços em que o meu pai, João Adamastor da Silva, se ia movimentando (desde os carnavais, ao teatro amador, às marchas de S. João, etc.), e dos quais, além do Professor Guilhermino Ramalheira, gostaria de recordar Olímpio Correia (com o seu conjunto de cordas) e João Vidal (com o seu conjunto de “jazz”). Sem esquecer, evidentemente, João da Madalena de que ainda hoje tenho o privilégio de ser amigo.
Mas só muito mais tarde, com a ajuda do meu primo Tude Portugal (que fez parte do conjunto “José Nóvoa”), aprendi os primeiros acordes na viola. E só depois, durante os longos anos de estudante universitário, me atrevi a passar de discreto intérprete do velho fado de Coimbra a fazedor de cantigas compostas de ouvido com a ajuda da viola e de meia dúzia de tons que fui alinhavando à minha maneira.


2 - Ainda hoje não sei responder concretamente a uma questão como essa. Talvez a necessidade de escrever (sou, sobretudo, um escrevedor de palavras que revisto, de vez em quando, de simples frases musicais). “Analfabeto musical” (nunca tive a coragem de concretizar o velho sonho de aprender a ler e a escrever música...), faço apenas o que os meus limites me permitem. Sem grandes pretensões de ser ouvido por quem detém o poder (o poder sofre, invariavelmente, de surdez mais ou menos profunda), mas talvez por necessidade de livremente dizer, a quem quiser ouvir, que a liberdade se constrói com a coragem de cada um, atenta e teimosamente, procurando rasgar, em cada dia, sempre mais um pouco das muralhas que nos separam uns dos outros e aprendendo, em cada momento, a recusar os paraísos artificiais prometidos pelos que detêm o poder (tenha ele a cor que tiver).


3 - Não tenho propriamente um conceito de sociedade ideal. Sei apenas que continuo insatisfeito apesar das mudanças profundas que o “25 de Abril” nos trouxe. Porque não me basta a liberdade de falar se não tiver, de facto, o direito de ser ouvido e se quem me ouve não tiver a capacidade e honestidade de procurar criar as condições que conduzam à resolução dos problemas existentes. Como é possível sentir-me verdadeiramente livre se neste preciso momento, muito provavelmente, alguém acabou de ficar desempregado e vai a caminho de casa como se tivesse subitamente naufragado no seu próprio país? Não há seguramente nenhum discurso, por mais bem feito que seja, que restitua a este desempregado a alegria de viver neste país do pelotão da frente da Europa... A liberdade que sempre desejei encontrar não tem nada a ver com esta hipocrisia quotidiana dos vendedores de ilusões que se servem da política como se fosse um simples palco onde levam à cena a tragicomédia que sempre sonharam representar. Não basta fingirmos que somos livres, ainda que tenhamos o cuidado de colocar em cada ano um cravo vermelho na lapela. É cada vez mais necessário redescobrir a coragem de lutar contra os mediáticos especialistas do fingimento que sequiosamente se foram infiltrando nos espaços vazios da nossa democracia e vão mudando de cor ao sabor do vento do poder.





4 - As minhas cantigas são apenas cantigas. E eu sou apenas o que sou, fruto de mim mesmo e de todas experiências que fui vivendo desde criança. Que todos somos muito do que fomos e do que trazemos guardado na memória. Daí que neste momento não consiga imaginar-me de outro modo. Mas nunca se sabe se não acordo um dia destes a fazer uma “pimbalhada” qualquer ou um hino patriótico por encomenda.


5 - Tenho sérias dúvidas que conseguisse fazer uma qualquer cantiga que fosse aceite, como dizes, como um “abanão”. Pontos fracos existem muitos (alguns dos quais sublinhei na resposta à tua questão 3). Mas não sei se terei a capacidade de escrever a cantiga adequada.


6 - A minha imaginação é demasiado limitada para imaginar os anjos. Daí que não consiga imaginar a música. Mas mesmo assim atrever-me-ia a propor como instrumento principal o violino.


7 - Depende muito das ocasiões. Normalmente necessito sobretudo de um pouco de isolamento. Começo habitualmente por escrever o poema. E se acontece, por vezes, que são os próprios versos que me sugerem o primeiro esboço da melodia, na maioria dos casos procuro construir as frases musicais que me parecem as mais adequadas para se unirem às palavras e se transformarem num todo, nem sempre conseguido, que se possa cantar. Mais ou menos inspiração, mais ou menos transpiração, com acontece com qualquer pessoa que sente a necessidade de fazer qualquer coisa.


8 - Quem sou eu para ter a pretensão de apresentar um projecto como esse? Já me contentava com um simples trabalho de paciência : fazer a compilação de tudo o que foi escrito (poemas, peças de teatro, músicas, etc.) durante os últimos 100 anos e organizar com todo esse material uma colecção de cadernos (ilustrados com fotografias da época) que de algum modo contribuíssem para um estudo de parte da história cultural desta cidade. Quanto a manifestações de carácter mais espectacular, como sugeres, penso que conviria começar, salvo melhor opinião, por recriar um novo espaço que tornasse possível o convívio entre todos os que gostam de ultrapassar a rotina cinzenta em que vamos vivendo. Talvez com a ajuda da nova equipa da Câmara (maioria e minorias), com a colaboração da equipa de “O Ilhavense” e com toda essa gente que continua a escrever, a compor, a cantar, a pintar, etc., se pudesse criar um movimento culturalmente activo que, sem pretensiosismos, fizesse, a pouco e pouco, reviver esta cidade.


9 - Onde estás ó liberdade?


10 - A memória dos homens é mesmo curta?


16/05/98
vieira da silva

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